Demitir é uma forma branda de assassinato.
Pensei nisso enquanto cumpria esta difícil tarefa, cheia de angústias, de grilos e com infinitas perguntas na cabeça. No instante em que tentava parecer racional, apresentando ao funcionário os motivos do seu desligamento, me senti bem próxima de um ritual de pena de morte. Apesar de convicta quanto ao 'culpado' me enxerguei pequena demais pra carregar um bastão de julgamento.
O meu papel de algoz me levou a uma profunda tristeza íntima.
Encerrei ali um ciclo de sonhos e projetos de um ser humano (e sim, os errantes também sonham!); contribuí para um hiato econômico e social; engrossei a fila dos desempregados. Usei a potente arma invisível que apelidamos de "chefia".
Tudo que pude dizer a esta pessoa na sua saída foi "Perdão. Perdão se hoje fui um muro. Quem sabe um dia possa ser sua ponte."